A retomada do varejo nos Estados Unidos - Stake Brazil

A retomada do varejo nos Estados Unidos

Depois da tempestade, a bonança. Após amargar forte retração ao longo de 2020, os Estados Unidos registraram em janeiro um crescimento de 5,3% nas vendas do varejo, dado bem acima dos 1,2% previstos pelos economistas americanos para o mês. A recuperação se deu depois que as famílias receberam auxílio adicional do governo devido à pandemia do coronavírus, incentivando a retomada econômica após a nova onda de infecções no final do ano passado.

Para se ter ideia, até o fim do ano, o varejo americano acumulava queda atrás de queda, em novembro, as vendas caíram 1,1% em relação a outubro, de acordo com dados do Departamento do Comércio, sendo as lojas de departamento as que mais sofreram naquele mês: fecharam com declínio de 7,7%.

O sofrimento do varejo não foi consolidado apenas nos Estados Unidos. Dados de uma pesquisa global publicada pela Euromonitor revela que o segmento perdeu no mundo quase US$ 550 bilhões em vendas em 2020, com retração de 3,5% no setor, e vendas atingindo US$ 14,6 trilhões no ano, versus R$ 15,1 trilhões em 2019. O motivo, sem dúvida, foi o aumento do desemprego em decorrência da pandemia. Itens de consumo não essenciais perderam espaço em um ambiente de incerteza e recessão global.

A economia dos EUA como um todo amargou as dores de ser o país que mais contabilizou mortes pelo coronavírus no ano passado.  O PIB – Produto Interno Bruto, que soma todos os bens e serviços produzidos em um país em determinado período – registrou queda pela primeira vez desde 2009, apesar dos estímulos do governo. Na comparação com 2019, o tombo foi de 3,5%.

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Mas agora, com a vacinação a todo vapor, sobretudo nos Estados Unidos, que aplicam, em média, 2,2 milhões de doses por dia e já vacinaram, até 12 de março, 19% da população (com ao menos uma dose), somado à injeção de um terceiro pacote de estímulos para a economia – o presidente Joe Biden promulgou em 11 de março um pacote de US$ 1,9 trilhão para medidas de auxílio contra a crise causada pela pandemia – a expectativa é que a situação melhore substancialmente.

“De fato, a gente já está vendo uma retomada no setor do varejo”, diz Anderson Meneses, CEO da Alkin Research, casa de análise independente. “Principalmente com a vacinação já sob controle, com uma boa perspectiva sob o horizonte de que no segundo semestre já teremos quase que a totalidade da população americana vacinada. Isso ajuda a garantir uma confiança muito grande, tanto para indústria quanto para o consumidor”, explica.

O mercado já sente o otimismo do avanço da vacinação e de um governo democrata decidido a ampliar a participação na economia. Os resultados positivos do varejo registrados no começo deste ano são reflexos do segundo pacote, de US$ 915 bilhões aprovado em dezembro, que inclui o pagamento de 600 dólares para a maioria dos norte-americanos de baixa renda e alguns de média renda.

O novo pacote de Biden aprovado em março é o terceiro liberado pelo país desde o início da pandemia. Ao todo, já foram gastos US$ 5 trilhões em programas de ajuda econômica, valor equivalente a cerca de 25% do PIB americano. Para se ter ideia do tamanho do incentivo americano, o pacote contra a recessão de 2009, implementado pelo ex-presidente Barack Obama, era até então o maior da história dos Estados Unidos – custou US$ 1,03 trilhão.

“Os Estados Unidos sabem sair de movimentos de recessão”, diz Meneses, da Alkin. “Após a crise do início dos anos 1980, ainda reflexo do choque do petróleo, o país registrou um crescimento de 7,9% no ano de 1983. A gente deve esperar algo similar para 2021, com um PIB que deve ter uma variação de 7,5% – um bom crescimento que será impulsionado por essa retomada do varejo.”

Varejo na bolsa de valores

Em Wall Street, as medidas do governo e a retomada do varejo já refletem no desempenho de alguns papéis. Desde dezembro, na semana anterior ao Natal, Kohl’s Corp e Macy’s Inc, grandes lojas de departamento americanas, viram suas ações aumentarem. No início de março, a Kohl’s publicou seu balanço do quarto trimestre e mostrou lucro que superou as projeções dos analistas (o lucro por ação foi de US$ 2,22, enquanto  analistas esperavam algo em torno de US$ 0,9911). Ainda assim, a receita do quarto trimestre não passou de US$ 5,88 bilhões (a expectativa dos analistas do mercado era de uma receita na casa dos US$ 5,94 bilhões). No ano, as ações da empresa estão em alta de 40%. 

Para entender a recuperação, pré-pandemia, em janeiro de 2020, as ações da Kohls Corp (KSS) eram negociadas a US$ 42,75 e, em abril, menos de um mês após a OMS declarar que o coronavírus estava difundido pelo mundo, caíram para U$S 18,46. A companhia fechou a sexta-feira (12 de março) em alta de 5,59%, negociada a US$ 60,46.

Já a Macy’s, outra grande representante do varejo americano, viu suas ações subirem depois que anunciou seu primeiro lucro trimestral em um ano. A receita no quarto trimestre também superou as estimativas.

A Macy’s relatou um lucro trimestral ajustado de US$ 0,80 centavos por ação, bem acima da estimativa de consenso de 12 centavos, com a receita também ficando acima das previsões de Wall Street.  Para efeito de comparação, em janeiro de 2020, as ações da varejista eram vendidas a US$ 15,95 e, em abril de 2020, caíram para US$ 5,86. A companhia fechou a sexta-feira (12 de março) em alta de 9,85%, negociada a US$ 18,73.

“O mercado está otimista, vendo o varejo se normalizar, principalmente quando o consumidor já não precisa mais ter a preocupação em deixar uma alta quantia guardada como reserva de emergência, o personal savings”, explica Meneses.

“Conforme o consumidor vê que a normalização já está se instaurando e que há expectativa de retomada de emprego, ele volta a ter confiança para consumir. Por isso, não há dúvidas de que o varejo será impactado positivamente cada vez mais, surgindo uma boa oportunidade para o investidor”.

 

*Esse conteúdo é apenas para informação e não deve ser entendido como uma oferta ou recomendação de investimentos. Performance passada não garante resultados futuros. As opiniões expressadas nesse artigo são do entrevistado e não representam necessariamente a opinião da Stake.