Spotlight: Amazon - Stake Brazil

“Pelo que eu vejo, a Amazon é uma organização filantrópica gerenciada por investidores para o benefício dos consumidores.” Foi assim que o jornalista Matthew Yglesias descreveu a companhia em 2013, criticando a gestão, que apesar de um faturamento crescente nos últimos 20 anos, ainda não havia registrado lucros. Seu fundador, Jeff Bezos, gostou tanto da descrição que a utilizou na sua carta anual aos investidores naquele mesmo ano.

Pode parecer curioso ver a Amazon sendo comparada a uma instituição de caridade, mas talvez esse seja um ponto chave para entender como ela saiu de uma varejista de livros fundada em uma garagem em Seattle para se tornar uma das maiores empresas do mundo: abrir mão de lucros no presente, dando preferência por maiores fluxos de caixa no futuro.

Hoje prática comum no gerenciamento de empresas, não é exagero chamar Bezos de visionário ao adotar essa postura na Amazon, sendo duramente criticado quando implementou essa política em 1997. Bezos sabia o que estava fazendo. Alguns, como Yglesias, ainda não entendiam. Oito anos depois, com a receita da companhia saltando de cerca de US$63 bi em 2013 para mais de US$ 419 bi em 2021, não parece haver mais muita margem para dúvidas.

Exercícios de futurologia

Se Bezos hoje é visto como um homem à frente do seu tempo, nem sempre foi assim. A fundação da Amazon na realidade foi fruto da sua ira por ter “perdido o bonde” do boom pelo qual a internet passava nos anos 90 (provando que você não é o único a perder ótimas oportunidades de negócios). Originalmente, a empresa vendia apenas livros, produto relativamente padronizado e com baixo custo de envio, o que facilitou que a empresa conseguisse ganhos de escala em logística. Este, porém, não foi o ponto-chave.

Antecipando uma tendência que se tornaria dominante nos anos seguintes, a Amazon era um marketplace de livros, conectando vendedores e compradores de todos os Estados Unidos sem de fato precisar gerenciar estoques. Em 1997, isso seria inclusive motivo de processo, quando a livraria Barnes & Noble processou a Amazon pois ela alegava ser “a maior livraria do mundo”, o que segundo os acusadores seria mentira, pois ela era apenas uma “corretora” de livros.

A Barnes & Noble perdeu o processo, mas eventualmente a Amazon não seria mais a maior livraria do mundo: não que outra companhia ultrapassasse seu número de vendas no setor, mas a Amazon se tornaria a maior varejista do mundo, vendendo de tudo, de A a Z, como indica sua logomarca. Apenas em 2020, a receita de seu e-commerce gerou mais de US$ 197 bilhões e, em 2021, apenas no Prime Day, data comemorativa da empresa, estima-se um faturamento de mais de US$11 bilhões.

O aluguel de galpões e centros de distribuição para melhorar os prazos de entrega da companhia foram fundamentais para o crescimento da empresa, mas não foram a única peça que explica o crescimento gigantesco da Amazon nos anos 2000. Aliás, o próprio crescimento passaria a ser um problema, com os servidores e bases de dados da empresa não sendo capazes de suportar o tráfego em datas de alto volume de acesso, como a Black Friday, por exemplo.

Voando pelas nuvens

O ano era 2003 e após sofrer perdas de receita causadas por problemas na infraestrutura de TI, Bezos conferiu a Andy Jassy a missão de solucionar este déficit de tecnologia, fazendo que isso não fosse mais um gargalo para o crescimento da Amazon. O negócio deu tão certo que Jassy foi destacado com cerca de 50 funcionários para fundar a Amazon Web Services (AWS), com a crença de que se a Amazon tinha problemas com TI, milhares de outras empresas também teriam.

O ano era 2003 e após sofrer perdas de receita causadas por problemas na infraestrutura de TI, Bezos conferiu a Andy Jassy a missão de solucionar este déficit de tecnologia, fazendo que isso não fosse mais um gargalo para o crescimento da Amazon. O negócio deu tão certo que Jassy foi destacado com cerca de 50 funcionários para fundar a Amazon Web Services (AWS), com a crença de que se a Amazon tinha problemas com TI, milhares de outras empresas também teriam.

Hoje a AWS é um colosso de mais de US$ 54 bilhões, mas esse gigante é invisível para muitos. A AWS fornece soluções de servidores e computação em nuvem para diversas empresas ao redor do mundo. Entre alguns dos seus clientes mais conhecidos estão a Netflix, a Samsung, a Zoom e o Snapchat. Se você utiliza algum serviço dessas companhias, certamente está utilizando os serviços da AWS. Aliás, se você está lendo esse artigo, provavelmente também está utilizando um servidor da AWS, já que a companhia responde por mais de 33% de todo o setor de computação em nuvem.

Atualmente a AWS é o braço de maior receita operacional da Amazon, gerando mais de US$13,5 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2021. Apesar do maior volume de vendas, os gastos operacionais do setor de varejo são muito elevados, ao passo que o ganho de escala da AWS, assim como da maioria dos setores de tecnologia, facilita que os custos sejam comprimidos e aumente assim a receita operacional. Por isso, muitos analistas e investidores da companhia defendem até mesmo uma cisão da Amazon e da AWS, ainda que o CEO da empresa afirme que esta mudança não esteja nos planos da companhia.

A passada do bastão

Em 2021, a Amazon passa talvez por sua maior mudança desde o surgimento da AWS: a mudança de seu CEO. Jeff Bezos se afasta da companhia e confere o título de presidente a Andy Jassy, que passa então a comandar a empresa. A escolha de Jassy segue um movimento similar ao que foi realizado pela Microsoft, quando seu fundador Bill Gates se afastou da presidência, sendo substituído por Satya Nadella, que antes comandava a divisão de cloud da companhia.

A mudança marca o posicionamento da Amazon cada vez mais como uma empresa de tecnologia, e não apenas como uma mera varejista (afinal quantas varejistas criam algo como a Alexa e a AWS?). Jassy afirma que irá seguir os passos de Bezos, muito provavelmente dando continuidade à ideia central de toda a filosofia de gestão de seu predecessor: priorizar a geração de fluxos de caixa futuros, mesmo que isso signifique ter de sacrificar a divisão de lucros imediatos com seus acionistas. Porém a julgar pela alta de mais de 1.000% nas ações da companhia desde que o jornalista Matthew Yglesias criticou essa postura em 2013, parece que o mercado aprendeu o verdadeiro valor dos fluxos de caixa futuros.

*Esse conteúdo é apenas para informação e não deve ser entendido como uma oferta ou recomendação de investimentos. Performance passada não garante resultados futuros.

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